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O Beta do Clássico tem sido um verdadeiro sucesso em termos de views. Além da enorme quantidade de acessos, perguntas e dúvidas têm surgido e vários debates e discussões tomaram conta das redes, opondo os nostálgicos do Clássico e os novatos curiosos. Mas será que o Clássico tem um prazo de validade?

O Clássico tem sido um assunto pertinente nas redes sociais desde o seu anúncio, na BlizzCon de 2017. Devido à revelação da data de lançamento oficial há duas semanas atrás (e da distribuição de algumas beta keys), o debate sobre o Clássico só ganhou mais força. Nestes debates eu consigo distinguir 3 “times” diferentes: o time dos jogadores nostálgicos; os mais “novos” (e aqui eu coloco como “marco zero” o Cataclysm – que foi uma expansão que teve uma grande transformação) que não conheceram o Vanilla na época; e os fãs de World of Warcraft no geral: aqueles que jogam para se divertir, para passar o tempo, que curtem a história mas que não são nem saudosistas e nem recém-chegados a Azeroth.

Ah Kfour, Clássico de novo?”, “Nossa, que hater, vai falar mal do Clássico de novo”, “Putz que cara chato”, “Ah Kfour, você é um [insira um xingamento terminado em -ista aqui]”.

Respondendo à pergunta de vocês: sim, de novo o Clássico. Se tem gente que usa o Beta do Clássico para ganhar views e subs em vez de reportar erros e bugs (que realmente são bugs), eu posso falar do Clássico quantas vezes eu quiser (ou até o Xalasca me demitir). E por poder falar do Clássico quantas vezes eu quiser, eu vou discorrer sobre um dos assuntos que mais força têm tido nas redes: “O Clássico tem prazo de validade?”.
Essa pergunta é presente em diversos debates, seja nos Fóruns oficiais de World of Warcraft, em redes sociais como Facebook ou em grupos de Discord ou Whatsapp. Mas porque é que essa questão é tão frequente nas discussões sobre o Clássico?

Neste artigo vou tentar pegar os tópicos mais discutidos, dar a minha opinião isenta (ou pelo menos tentar ser o mais isento possível) e, no final, tentar fazer um prognóstico do que será o Clássico quando ele realmente vier. E lembrem-se: sou pessimista. Muito pessimista.

O tempo

Eu já falei um pouco sobre isto no meu artigo passado (caso não tenha lido, clique aqui). Hoje em dia, os jogos tendem a ser um pouco mais imediatistas do que eram nos tempos em que o Vanilla foi lançado. O World of Warcraft é um próprio exemplo disso. O jogo evoluiu ao ponto de você poder comprar um token para dar instant level 110 nos seus personagens, coisa que na época do Vanilla era algo impensável. O próprio Vanilla é um antagonista do imediatismo: ele é um jogo que consome e demanda muito tempo. Só para upar do 1 ao 60 é uma eternidade (vale a pena ressaltar que o jogo não tinha quests suficientes para upar do 1 ao 60 e nos últimos 2 níveis você tinha que ficar matando mobs por aí para poder pegar level cap). Como se isso não bastasse, a maioria das Raids (senão todas) tinham quests de attunement.

“O que são quests de attunement?”

As quests de attunement são uma série de missões que você tem que fazer para estar apto para fazer algo. Isto é: para você simplesmente pisar dentro de uma Raid, você tinha que fazer uma série de quests. Caso não completasse esses attunements, você simplesmente não podia participar da tal Raid.
Fora isso, o próprio gearing do seu personagem era muito demorado por causa do sistema da época. Nos tempos de Vanilla não existiam World Quests, não existia Dungeon Finder, solar coisas era bem difícil (pois era necessário gear para isso)… Do mesmo jeito que o WOW envelheceu os seus jovens fãs também envelheceram. Quem tinha 15 a 20 anos na época, hoje está com 30 – 35 anos. Essas pessoas, hoje em dia, têm o seu trabalho, seus filhos, sua família, suas obrigações – coisa que com 15 anos não tinham (na sua grande maioria, claro). Como é que uma pessoa, que tem que acordar cedo para ir para o trabalho, ajudar nas tarefas domésticas, cuidar dos filhos, entre outras coisas, tem tempo para ficar 20 a 40 minutos formando um grupo, para poder fazer uma masmorra que demora mais de 50 minutos para terminar (por exemplo Blackrock Spire (Pico da Rocha Negra), que antigamente não era dividida como é hoje) para tentar pegar um item para, no dia seguinte (porque depois de tanto tempo ele tem que ir dormir para acordar cedo), ele poder farmar outra dungeon para pegar outra peça de gear e repetir esse processo incansavelmente até ter o seu gear completo para, finalmente, poder fazer uma Raid? Sem contar que os drops não são com as mecânicas que são hoje em dia. Você pode ser um Warrior (Guerreiro) e só cair item de Cloth (Pano) na masmorra inteira e assim todo o seu esforço foi por água abaixo. Estes pequenos detalhes fazem uma grande diferença no final;

A organização

Além do tempo necessário para poder ter um aproveitamento bom no Clássico, a organização era primordial. Guildas tinham que ser muito bem administradas para que fosse possível atingir os objetivos. Primeira coisa a se organizar era a “mão-de-obra”: eram necessárias 40 pessoas para uma Raid (antigamente não tinha essa paradinha de flex raids). Depois de todo o trabalho que eu citei no tópico passado para todos pegarem gear e fazerem as attuenment quests necessárias para entrar na Raid, as 40 pessoas tinham que ser habilidosas e comprometidas o suficiente para poderem progredir dentro da Raid. Além da questão de “mão-de-obra” era necessário ter um controle muito bom na questão de recursos (flasks, comida, enchants, scrolls, etc). Algumas “receitas” eram bem difíceis de serem obtidas e os próprios materiais para fabricar as coisas eram difíceis de se obter. Usando um exemplo básico para vocês poderem ter noção da dificuldade que era ter enchants bons para todos os membros do Core de uma guilda:

– Qual a matéria prima para um enchanter poder fazer um encantamento? Cristais e dust;
– E esses cristais e dust são obtidos como? Desencantando gear;
– E para desencantar gear o que você precisa? De gear;
– E o que vimos no último tópico? Que gear era bem difícil de ser obtido.

Então, depois desta simples analogia, podemos ver que uma das profissões necessita de bastante ajuda. Era bastante comum, na época do WOW Vanilla, ver grupos de pessoas ajudando os enchanters da sua guilda a farmar itens para desencantar. Multiplique isso por 40 membros de um Core. E agora adicione a essa equação as outras profissões essenciais (como Alchemy (Alquimia), Inscription (Escrivania), Jewelcrafting (Joalharia) para uma guilda ter mais chances de sucesso em uma Raid.
Além disso tudo também tinham os líderes. Hoje em dia o mais comum é ter um Raid Leader geral. Na época do Vanilla, até pelo fato da informação não ser tão fácil de ser encontrada como é nos dias de hoje, era muito comum você ver 4 Raid Leaders: o Tank Leader, o Healer Leader, o RDPS Leader e o MDPS Leader. Algumas guildas ainda tinham, no backstage, os Class Leaders, que eram as pessoas mestres em uma classe e que ajudavam os outros dessa mesma classe a compreender melhor as mecânicas. Hoje em dia eu creio que os Class Leaders não vão estar presentes no Clássico, mas se preparem para ter 4 Raid Leaders gritando no Discord ao mesmo tempo. Tudo isto, entre outros detalhes claro, para você poder fazer uma simples Raid;

A convivência

Pelo fato de ser necessária muita organização, as guildas eram de extrema importância. No Vanilla você não ter uma guilda significava que você teria muitas chances de não completar uma Raid (ou até mesmo uma masmorra). Como vocês sabem, na época, não tinha Looking For Raid, Dungeon Finder – ou seja a Guilda ou o LFG do chat da capital da sua facção eram a sua salvação. Você tinha que ter um grupo pronto para ir até ao local da instância, entrar nela e ser organizado (e paciente) o suficiente para poder completar essa instância. Tendo isso em vista, a harmonia e a boa convivência de uma guilda eram imperativas. Como em todo grupo de seres humanos, discussões e tretas eram normais dentro de Guildas, mas a maturidade para resolver essas tretas tinha que falar mais alto – ou todos sairiam prejudicados. Isso é útil até hoje, mas no Vanilla tinha um pouco mais de importância e eu vou explicar o porquê.

Imagina o seguinte cenário: depois de investir tanto tempo pegando gear, se equipando com os melhores equipamentos do jogo, encantando e gemando todo seu gear, você está pronto para entrar na Raid e, por causa de uma treta, metade do Core é destruído? E agora?

Agora a Guilda teria que voltar a recrutar, ajudar os mais novos a pegar gear, a encantar e gemar seus gears, ensinar as fights e torcer para que a próxima treta demorasse a aparecer. Um dos tópicos de grande interesse nas discussões do Clássico é sobre essa convivência. Será que os mais arrogantes ou os “narizes arrebitados” vão ter paciência para serem cobrados dentro e fora das Raids (sim, porque o Clássico tem muita cobrança – mais do que hoje)? Será que os mais egoístas (ou aqueles que estão mais habituados a fazer solo content no Live do WOW) vão ter paciência para poder ajudar os colegas de guilda a farmar itens verdes para desencantar? Será que os mais impacientes e imediatistas vão ter paciência para ler todas as fights ou ouvir os Raid Leaders explicando cada detalhe de cada fight?

“Poxa Kfour, mas aí você vai me fazer desistir de jogar o Classic”.

Não cara, não faça isso. Isto é a minha opinião com base na minha experiência de vida (e de jogo) e eu não tenho intuito nenhum de desencorajar ninguém a jogar o Clássico! Jogue o Clássico e esfregue na minha cara que eu estou errado! Já fui Raid Leader (não no Classic); já fui player de progressão; já passei nervoso; já joguei horas seguidas, todos os dias, para ser o melhor, ter o melhor gear… Hoje estou bem mais casual. Mas não é por eu ser dessa forma que você tem que me imitar – até porque eu não tenho que ser exemplo para ninguém. E atenção que o Clássico não tem só coisa “ruim”. Tem muita coisa boa e eu vou listar umas aqui para vocês não perderem a esperança no joguinho:

Quests específicas de classe

Quem gostou dos Order Halls (Salões de Classe) de Legion, certamente vai gostar do Clássico neste âmbito. Shamans (Xamãs) tinham que fazer quests para liberar os totems, os Warlocks (Bruxos) e Paladins (Paladinos) tinham quests para liberar as montarias de classe, Hunters (Caçadores) tinham que alimentar os seus pets, entre outras coisas. Tudo isso contribuía muito para a imersão dentro da classe que você estava jogando e era bem divertido (vai, alimentar o pet era chato para caramba, mas quem joga de Hunter tem que se ferrar mesmo);

Guilds

Finalmente as Guildas vão servir para alguma coisa (desde o Cataclysm que tem sido bem “meh” pertencer a uma Guilda – não à toa que a expansão é muito conhecida por “Casualism”). Mesmo que você queira ser casual e não tenha tanto interesse em Raids, Guildas são bem legais, principalmente se você tiver um grupo de pessoas bacanas para trocar ideia e conversar. Eu fiz muitos amigos, bons amigos até, graças a Guildas do World of Warcraft (e isso vale para Guildas no live). Infelizmente, hoje em dia, o sistema de Guildas está bem defasado e o seu impacto in-game é quase nulo;

Árvore de Talentos

O que eu mais sinto falta no WOW atual. Tudo bem que até no Clássico existia o “meta” de cada classe – isso sempre teve e sempre vai ter. Mas a chance de ter classes “híbridas” sempre me chamou a atenção. Quem nunca ouviu falar no Enhance Off-Tank? Ou no famoso Shockadin? No Clássico isso voltará a ser uma realidade. Além disso, você terá a chance de deixar a sua especialização do jeitinho que você gosta. Só tome cuidado que no Clássico não existe Dual Spec e o custo para resetar os pontos de talento é alto;

Lore

Ao contrário do que estamos habituados nas últimas expansões, a Lore do Vanilla era muito boa. Se você seguir ela direitinho, você certamente vai se apaixonar. Existiu uma boa variedade de “arcos” dentro da Lore do Vanilla. Você vai ver coisas desde a Revoada Negra de Onyxia e Nefarian, até aos Elementais de Fogo, passando pelos Old Gods (Deuses Antigos) e os Qijari, a treta entre Horda vs Ally e, por fim, chegar ao Flagelo em Naxxramas. Uma prato cheio para os amantes da Lore;

Ranks de PVP

Para os amantes de PvP o Vanilla tinha uma coisa muito boa que eram os ranks. À medida que você fazia conteúdo PvP e abatia players da facção inimiga, você ia subindo de ranking dentro da sua facção. Com cada rank você desbloqueava algumas recompensas, como gear, títulos e montarias. Um prato cheio para quem gosta de ser recompensado pelo esforço.

Mas e aí, qual o prazo de validade do WOW Clássico?

Esta previsão eu já fiz no meu artigo anterior, mas agora vou conseguir embasar mais ainda as minhas crenças nesta questão. O Vanilla foi um ótimo jogo (e isso é inegável) e o WOW Clássico tem a proposta de se manter fiel ao que o Clássico era – mas os tempos mudam. Não vejo a filosofia do Vanilla ser bem aceita em pleno 2019, por tudo o que eu já mencionei neste artigo e no artigo passado (por isso não vou me alongar muito na conclusão).

O sentimento de nostalgia é bom – mas é passageiro. Quem jogou o Vanilla, vai jogar o Clássico, isso é óbvio. Mas quantos vão continuar? Porque tem toda a questão de tempo, da nostalgia ser passageira, da questão de novidade (quem já jogou já passou por aquilo, então a sensação de novidade já não existe). O sucesso do Clássico só poderá ser mensurado, a meu ver, passado 6 meses do seu lançamento oficial. Os primeiros meses são de hype, são de nostalgia pura, são de descoberta (para quem não jogou) e de adaptação. Só depois de alguns meses é que podemos ver se o Clássico reteve muitas ou poucas pessoas – e aqui é aonde eu bato firme. O WOW Clássico vai explodir nos 2 primeiros meses, mas depois disso vai perder muita gente. Não vejo ele tendo uma continuidade com números expressivos. E esse (possível) insucesso do Clássico me deixa dividido:

Por um lado, vou ficar triste, pois gostaria de ver a Blizzard acertando em alguma coisa (que nos últimos anos isso está bem difícil de acontecer, convenhamos). Além disso, é possível que, caso o Clássico seja um sucesso, exista a progressão para o The Burning Crusade e Wrath of the Lich King – e o WOTLK eu quero muito jogar! Por outro lado, quero que as pessoas enxerguem que as coisas têm o seu próprio tempo e que é preciso evoluir em tudo – incluindo os jogos.

Repito: o Vanilla foi um ótimo jogo, mas tudo muda – inclusive os gostos e as necessidades das pessoas.

Queria que deixassem o Vanilla quieto onde ele está, sem mexer nele para que todos pudesse guardar ele com o carinho que sempre guardaram. Mas com esta ressurreição acredito que vai fazer um mal danado à memória do Vanilla (a longo prazo).

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