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Bom dia/tarde/noite meus incríveis leitores e sejam bem vindos a mais uma crônica. É bom saber que o meu texto anterior causou o furdúncio que deveria ter causado: afinal, Xalascão me convidou para botar fogo no parquinho! Gostei bastante da participação de vocês no Facebook, aonde trocamos ideias e pudemos ver outros pontos de vista diferentes do meu (e uma ofensa ou outra contra mim – nada que eu já esteja habituado).

O tema de hoje, apesar de ser mais light (e curto) do que o seu antecedente, tem a sua quota parte de importância em debates e vem complementar um pouco do que eu falei na semana passada (caso você tenha perdido o texto da semana, clique aqui para ler).

Muitas das vezes nos questionamos do porquê a Blizzard ter feito isto e aquilo, xingamos e ficamos nervosos – o que é totalmente válido. Mas se pararmos para pensar , talvez essa atitude da empresa tenha uma certa lógica. Então neste texto de hoje vou pegar em dois pontos de vista distintos, que são bastante discutidos quando existe alguma alteração ou adição importante no jogo: a Mecânica e a Lore.

O que é Mecânica?

Neste caso em específico, Mecânica é o gameplay, por assim dizer. Neste texto Mecânica vai englobar tudo aquilo que o seu personagem faz, desde habilidades que ele casta até eventos que ele participe, como Raids ou Campos de Batalha.

O que é Lore?

Lore é o conjunto de história e fatos do jogo ou do Universo de World of Warcraft. As histórias podem estar presentes no jogo, através de textos em quests, cinemáticas ou em livros ou artigos e mini-histórias no site oficial da Blizzard.

O tema da minha coluna anterior teve partes desta discussão: por um lado, in lore, eu achei (e continuo achando) errado algumas raças poderem ser tal classe mas, por outro lado, isso uma hora tem que existir para a Mecânica do jogo não ficar prejudicada. Como vimos, no Vanilla, Xamãs eram exclusivos para a Horda e Paladinos para a Aliança. Dentro da história do jogo (ou seja, da Lore) isso teve o seu sentido mas no quesito mecânica, as facções (e consequentemente os jogadores) se sentiam prejudicados. Por vezes um boss era mais fácil de ser derrotado se existissem 2 ou 3 Paladinos na Raid (o que trazia uma vantagem para os jogadores da Aliança) e por vezes um boss era mais fácil de ser derrotado se existissem 2 ou 3 Xamãs na Raid (que favorecia os grupos da Horda). Uma forma da Blizzard contornar isso foi tirar essa questão de ter Classes exclusivas para facções.

Exemplos de contradições de Raças x Classes x Especializações

Mesmo assim, hoje em dia, ainda existem esses choques entre Lore e Mecânica. No decorrer deste “capítulo” vou citar alguns exemplos (no meio de muitos) para que vocês possam entender essa dualidade de perspectivas e como isso impacta ou a Mecânica do jogo ou a Lore in-game.
Vamos começar por raças que podem desempenhar algumas especializações que eu considero não muito coerentes (no tocante à Lore, claro):

  • Void Elves (Elfos Caóticos). Como o nome indica, Elfos Caóticos têm uma afinidade com os Especto do Vazio e das Sombras. Com toda essa afinidade, se pararmos para analisar, não faz muito sentido eles poderem manipular as energias do especto Sagrado. Discipline Priest (Sacerdote Disciplina) também ficaria entre a espada e a parede, pois mesmo manipulando energias do Caos, os Sacerdotes Disciplina também têm que manejar energias Sagradas, o que vai ao desencontro da natureza destes Elfos. Desta forma, a única spec que deveria ter para Elfo Caótico Sacerdote seria Shadow (Sombra);
  • Lightforged Draenei (Draenei Forjado à Luz). É a mesma lógica que os Elfos Caóticos, mas de forma inversa. Os Draenei Forjados à Luz têm uma afinidade enorme com o Espectro Sagrado e abominam a utilização de energias contrárias às suas crenças. No entanto é possível criar um Sacerdote Sombra com esta raça, o que vai ao desencontro das suas crenças e da sua natureza.

Mas como isso impacta? 

Do jeito que está impacta apenas a coerência da Lore, pois dentro do jogo a raça vai poder desempenhar qualquer papel dentro das especialidades disponibilizadas para a classe em questão – e é esse o objetivo da Blizzard. Do outro lado, como podemos ver com o meu exemplo, dentro da Lore, da temática e da coerência dos detalhes da história das raças e das classes, não faz sentido algum uma raça que é Forjada na própria Luz Sagrada possa manipular o seu contraponto direto, que são as sombras.

Outras raças têm embasamento de Lore (por mais que eu concorde ou discorde desses embasamentos) para poderem desempenhar uma determinada classe. Por vezes, essa justificativa tem uma base sólida, mas ás vezes a justificativa é inventada de uma maneira “porca” só para dar uma espécie de desculpa para que algo seja possível in-game (permitindo sim a melhoria nas mecânicas do jogo). Seja de que forma for, esse embasamento de Lore nos mostra algumas diferenciações entre uma raça e outra que desempenhem a mesma classe. Infelizmente, no jogo, esses detalhes e diferenciações não são explorados e abordados, tornando todas as classes, independentemente da Lore da raça em questão, bem semelhantes, perdendo um pouco da lógica e da imersão. Deixo aqui um dos exemplos possíveis:

  • Paladinos. Muitas raças podem ser Paladinos e no jogo todas elas são retratadas praticamente da mesma forma. No entanto, in lore, é sabido que algumas raças têm algumas particularidades que permitem que estas possam desempenhar o papel de um Paladino no jogo. Os Tauren, por exemplo, não são Paladinos “comuns” (comuns como os Humanos, por exemplo), mas sim Sunwalkers (ou Andarilhos do Sol, em Português). Os Tauren extraem a sua energia sagrada de An’she, uma espécie de divindade para eles. Já os Elfos Sangrentos, como vimos no artigo da semana passada, mesmo tendo fé na Luz Sagrada no passado, tiveram que capturar, extrair e manipular as energias de um Naaru para que os Paladinos pudessem ser uma realidade. Recentemente vimos os Zandalari Trolls poderem ser Paladinos também. Na verdade, o nome correto para os paladinos Troll é Prelate (ou Prelado em Português) e estes são considerados uma ordem de guerreiros sagrados que lutam em nome do Loa Rezan.

Com este breve exemplo podemos ver que mesmo tendo backgrounds diferentes, todas as raças que podem ser paladinos são tratadas da mesma forma in-game. As habilidades têm o mesmo nome, ignorando as origens das raças; os efeitos visuais das habilidades in-game são semelhantes, o que também não faz muito sentido em alguns casos; não existe particularidades aparentes que mostrem que um Paladino Humano é diferente de um Paladino Tauren.
Todos esses fatores juntos mostram como é flagrante que a Mecânica é tratada como prioridade pela Blizzard, abdicando de detalhes que poderiam enriquecer a imersão e as particularidades de cada raça.

Mas por quê isso acontece?

Eu creio que isso acontece por diversos motivos, alguns deles compreensíveis e outros nem tanto. Vou tentar listar aqui alguns exemplos que me vêm à mente que expliquem esta equação de Mecânica > Lore:

  • Interesse em Lore. Muita gente joga mais pelo in-game. Apenas uma parte (que eu não sei quantificar como é óbvio, mas é visivelmente pequena comparada a quem se interessa apenas pelas mecânicas do jogo) se atenta aos detalhes de Lore ou dá mais importância a Lore. A grande maioria presta mais atenção e dá mais valor a mecânicas como drops, scores, ilvl e tudo mais. Para uns, ter o maior score no raider.io, fazer a Míticas com a maior Pedra possível, ter o ilevel mais alto da guilda ou pegar 2500 rating no PvP é o que interessa e a Lore é apenas um background para deixar as coisas bonitas. E isso é perfeitamente aceitável, pois cada um está pagando a sua mensalidade e cada um joga como quer;
  • Tempo. O tempo para dar detalhes para cada classe dentro de cada raça seria alto. O que teria que acontecer seria ou aumentar o número de funcionários necessários no desenvolvimento e aperfeiçoamento das classes ou tempos maiores nos releases de cada patch ou expansão, pois o time estaria ocupado realizando esses aperfeiçoamentos. Uma forma rápida (mas não totalmente eficaz) de contornar essa questão e agradar os mais atentos à Lore, seria a utilização de glyphs para alterar algumas partes visuais de spells e habilidades. O nome das habilidades seria (teoricamente) algo mais fácil de ser mudado, mas isso poderia criar confusão dentro de raids/dungeons (por exemplo a habilidade de um Paladino Humano se chamava Azeite e a mesma habilidade de um Tauren Paladino se chamava Azeitona e isso poderia causar confusão, pois seriam dois nomes para a mesma coisa). Essa questão também poderia trazer problemas/confusão na criação de macros ou na personalização e/ou desenvolvimento de addons, o que nunca é agradável. No entanto, a parte visual com a utilização de glypsh seria bem plausível de virar realidade – bastava uma boa vontade da Blizzard;
  • Lore é mais fácil de alterar. Mecânicas demoram tempo a desenvolver, demoram a ser implementadas, demoram a ser testadas e demoram a ser aperfeiçoadas, por isso o risco é grande. Quantas vezes vimos novidades em mecânicas e coisas in-game que duraram uma ou duas expansões, seja por desaprovação da comunidade ou por outras questões. Pensando por alto me lembro do Reforger, dos perks das Guildas (só sobraram uns 3 ou 4 nos dias de hoje), da árvore de talentos antiga, entre outras. A Lore já é mais fácil de ser manipulada: afinal o que for escrito e implementado, seja bom ou ruim, é lei e isso terá apenas um impacto teórico, não alterando a jogabilidade do WOW. Então aquela pessoa que joga apenas para pegar AOTC ou para pegar rating de arena não será impactada por uma alteração de Lore como seria afetada por uma alteração de uma mecânica de jogo. E, em último caso, se a Lore for ruim, a Blizzard sempe pode chamar um personagem da geladeira para (tentar) salvar o dia (cof Illidan cof).

Isso é frescura!

Bem, pode até ser… Eu estou redigindo este texto como um cara que curte muito e dá valor à jogabilidade mas que, acima de tudo, gosta da Lore do Universo de World of Warcraft. É nítido que o objetivo da Blizzard é fazer com que o player passe muito tempo na frente do jogo – afinal isso é o que dá dinheiro para eles. Infelizmente a Lore só faz isso com algumas pessoas, mas uma mecânica bem feita (ou não) pode fazer com que o jogador fique mais ou menos tempo in-game. Basta ver quantas pessoas que largaram o jogo porque o farm era excessivo ou a mecânica era chata e quantas pessoas largaram o jogo porque o seu personagem preferido morreu ou virou trevoso.
Falando disso, o que temos vistos nas últimas duas expansões é um farm absurdo de coisas que não vão interessar para nada passado alguns meses: basta ver o que aconteceu com o Artifact Power de Legion (que no 8.2 passou a ser automático), com os Lendários de Legion (que dropava de um mob aleatório em Azsuna e que tá largado no seu banco agora) e o que vai acontecer com o Azerite Power em BfA pós 8.2 também. A introdução das Míticas + também fizeram com que os jogadores passassem mais tempo fazendo a mesma coisa, sem que os devs tivessem que criar coisas novas (apenas aumentando percentagens à medida que a pedra aumenta). Em suma, eles (da Blizzard) vão fazer tudo para otimizar as mecânicas e o in-game; se no processo der para fazer uma Lore legalzinha in-game eles fazem, se não, que se lasque.
E para aqueles que amam a Lore acima de qualquer coisa, é triste – muito triste! Felizmente, para compensar esses detalhes a Blizzard lá lança umas cinemáticas legais, umas webseries (como a série Warbringers) e livros para complementar a Lore in-game (menos quando eles dão retcon no Crônica 3 passado uns meses após o lançamento, mas isso fica para outro dia).

E para vocês, o que é mais importante? Lore? Mecânica? Ou o conjunto de ambos? Comentem aqui ou lá na página do Facebook e até quinta-feira <3